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Fortuna crítica 

Essa página contém alguns dos textos sobre criticas e trabalhos publicados a respeito das obras do autor.

Professora Rita Pacheco limberti

CRÍTICA DE RITA PACHECO LIMBERTI  

Onze Bandeirinhas” é mais um livro de Salomão Laredo que vem somar-se ao vasto conjunto de sua obra, precioso inventário da rica cultura da Amazônia do Pará. Não é, contudo, apenas mais um livro, pois surge (embora saibamos que não é o último) como o ápice das representações da cultura local. Tamanha agudeza foi atingida pelo movimento espiralado que a sequência de obras de Laredo foi descrevendo, partindo de um trato mais abrangente de sua terra e de sua gente, até atingir o âmago de sua expressão: o bairro do Guamá.  Assim, “Onze Bandeirinhas” nos traga, desde o intrigante título, a uma experiência bastante realística, da pulsante vida deste universo sui generis revelado pelo autor. De modo mágico, somos conduzidos pelas ruas e lugares daquele mundo à parte, acompanhados de personagens tão reais quanto oníricas, que nos ombreiam no fio frenético da narrativa, sussurrando histórias e causos surreais. Vêm do cotidiano miúdo os fatos de suas existências míticas, que nos envolvem em um ambiente etéreo, onde o real vibra em suas falas, delegadas por Salomão.  Não é Laredo nem é o autor que fala; é Salomão, o homem comum, local, familiar, um deles, cuja autoridade nos deixa ouvir as vozes num discurso direto desconcertante. Desse modo, ele se esgueira no arcabouço narrativo genialmente construído num cotejo mitológico, que, ao mesmo tempo que revela denotativamente os fatos, joga um véu conotativo e ambíguo sobre seus efeitos e desdobramentos. As falas diretas das personagens descortinam, na superfície, registros de fala peculiares e absolutos, enquanto no nível mais profundo, lexical, refratam as significações e estilhaçam os valores. Paradoxalmente, Laredo, o autor e Salomão são todos eles, na medida em que, ao fazer esse raro registro dos falares, os cria, recria, põe em ata.  As personagens, desbocadas - porque não têm boca, não têm voz -, ao falar são desbocadas: escancaram as minúcias das misérias humanas, desumanas, sacanagens. A realidade nua e crua se revela placidamente… como as águas do grande rio…  Num ímpeto, buscamos atualizar e propor caminhos epistemológicos para a leitura, transpondo a tênue linha que divide a transgressão e a legitimação da linguagem e dos fatos. É impactante a formal sutil com que o autor realiza uma categorização de saberes, valores e crenças até então invisibilizados, sem desqualificar a legitimidade dos processos de construção da cultura. Na práxis, apresenta outros modos de existir; apresenta memórias de si mesmo e apresenta em si mesmo o que cada personagem sente em sua vivência impensada: a existência no entrelugar, nas fissuras e nos esgarçamentos, que oscilam de um lado a outro, amealhando, no final, um acordo discordante, tragicamente harmonioso. O livro é um tratado ruidoso da decadência de padrões e da fragilidade da tradição, o qual erige um raro agenciamento das camuflagens relações cotidianas e das astúcias das manifestações identitárias. Vislumbra-se, assim, um acesso possível à identidade contemporânea, resultante dos contornos fugidios de subjetividades antagonicamente reais e míticas, via astuta de acesso ao real, sem mediações pudicas, um convite a uma experiência sensorial e concreta. A escrita de Salomão é esta: corajosa, impactante, emocionante; seu texto nos coloca dentro de outras peles, de outras carnes, de outras identidades. Seu texto nos surpreende de nós mesmos quando, em algum furtivo momento, flagramos em nós pedaços ocultos dos seres que nos causam repulsa. A narrativa, de ritmo psicodélico, modula-se esgueirando-se nas temporalidades da escuta: histórias contadas, reais ou inventadas, perguntas sem respostas, respostas ao nada constituem rico material estético. Ao escrever uma história insólita, o autor cria deslocamentos e lapsos de tempo, os quais compõem uma linguagem cronológica anticonvencional. Ao produzir esses deslocamentos temporais, Laredo instaura uma nova dimensão de sua escuta: a de um personagem. Assim, tem-se uma história “líquida”, alinear, descontínua e coerente que fala das assimetrias sociais, de subalternidade, de narrativas marginais, sem atas ou arquivos, nos limiares do Humano. Deslocar o tempo é recurso primoroso, pois cria um presente atemporal por meio de ecos e ressonâncias, memórias discursivas, orais, que desorientam as balizas de inteligibilidade temporal vigentes. Além do tempo e a memória, Laredo articula múltiplas relações com a mitologia e a imaginação. Ao mesmo tempo, proporciona-nos interessantes experiências sensíveis nas quais deparamos com nossa própria história no interior de um mundo longínquo jamais visto, um lugar mítico e real, simples e absolutamente complexo, inextricável, como o nome “Onze Bandeirinhas”... O autor, onisciente, faz que não sabe de nada... e deixa as histórias brotarem aos borbotões...os personagens dominarem as cenas... sua escrita funda uma dramaturgia reorientada pela sensibilidade e pelas relações intersubjetivas. O livro é um material estético inestimável erigido sobre o fulcro cultural contemporâneo do riquíssimo Guamá. Ao fechar o livro, sinto-me cúmplice, amiga, guamaense. Tão guamaense que não sei explicar com exatidão como surgiu o nome “Onze Bandeirinhas”.

Professora Nellihany dos santos Soares

ONZE BANDEIRINHAS, DE SALOMÃO LARÊDO: VISITANDO ALGUNS ASPECTOS DA OBRA E UMA PERSONAGEM EM ESPECIAL – A PROSTITUTA PUGA MANTEGA

 

Nellihany dos Santos Soares

Onze Bandeirinhas – Onze janelas – Passagens do Guamá – bandeira de açaí-bandeira de bacaba – bandeira de miriti – romance performance aplicação situação memorial descritivo da vida na Amazônia, é o mais novo romance de Salomão Larêdo, a ser publicado em agosto de 2024, durante a 27ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes. A começar pela grandeza do título, a ficção do autor surpreende, visto que nasce de histórias, estórias e de uma certa ligação (pelo menos na minha leitura) com a denominada sétima arte, o cinema. Não esqueçamos que um escritor é um criador e como tal, faz uso de toda a habilidade que tem na escrita e no conhecimento sobre a vida, sobre as pessoas, imagens, fatos, referências de tudo aquilo que leu e viveu... Isso é para justificar que o referido romance não se concentra no óbvio, no esperado. Ele nos tira desse lugar confortável ao qual estamos acostumados e rouba nossa concentração, porque muitas vezes labiríntica, mas não incompreensível, pelo menos não depois de uma releitura e de algumas buscas para sanar uma ou outra hesitação. Bom, encontrei caminhos interessantes. Voltemos à obra. O cinema está nela, disso tenho certeza. Também a percorrem outras artes como a fotografia e a própria literatura – os intertextos são muitos. Há mitologia indígena amazônica, mitologia grega e romana, esta, aliás, representada pela história de Píramo e Tisbe, dois jovens que se apaixonam e que são proibidos pelos pais de viverem esse amor, resultando em suas mortes. Provavelmente uma inspiração para Shakespeare, e para Salomão Larêdo. Tragédias à parte, não esqueçamos que os tempos são outros, e que as histórias, trágicas ou não contadas pelo autor, receberam uma nova roupagem. Marca de quem bebeu em fontes diversas, vanguardas europeias, principalmente. Em Onze Bandeirinhas o cenário é o mundoamazônico! O bairro do Guamá, periferia de Belém. Por falar em cinema, os franceses Andre Bazin e Jean-Luc Godard, cineastas e críticos de cinema dos mais importantes também são referências para Larêdo, que cita uma frase reflexiva escrita por Bazin que diz “o cinema substitui um mundo por outro mais em harmonia com os nossos desejos”, na qual se atreveu em substituir a palavra cinema por “literatura”, pois acredita que a literatura também tem esse poder de envolver tudo e todos, incluindo nossos desejos, contribuindo para um mundo utópico, mesmo diante de concretas e fatais distopias. Além da frase citada, desconfio (desconfio porque não sou uma estudiosa do cinema) que o autor fez uso de elementos próprios dessa arte durante a criação da narrativa. Tentando entender certos elementos no texto, fui em busca de algumas informações sobre os cineastas citados e sobre o filme no qual Godard cita a tal frase usada por Larêdo. O filme é o drama Le Mépris (1963), cuja tradução é O Desprezo, dirigido por Godard. O filme vai contar a história de amor vivida por dois personagens e os distanciamentos vivido por eles. Vale dizer que o filme é uma adaptação de uma obra literária, e que essa história de amor não acontecerá de forma simples, pois o “simples” não acontece nos filmes de Godard. Aqui me permito fazer uma rápida comparação do cineasta com o escritor Salomão Larêdo, para quem o trabalho literário nunca é simples, porque o simples é sempre inesperado, imprevisível. Uma outra comparação pertinente do filme com o livro Onze Bandeirinhas é que no primeiro plano do filme, o próprio Jean Godard narra os créditos do filme, tal como o faz Larêdo em Onze Bandeirinhas, deixando seus leitores a par de suas intenções na narrativa e/ou explicando palavras específicas e outros elementos que considera importante. No filme, as cores são presença marcante, principalmente o vermelho, o amarelo e o azul. Essas cores me fizeram pensar sobre a capa do livro de Salomão Larêdo, na qual o vermelho e o amarelo ganham destaque, sugerindo o desgaste ou o entusiasmo das paixões, violência, morte, desgostos, alegrias, vitalidade, sexo... Uma última comparação é sobre a divisão da obra. No cinema temos cenas, na literatura, capítulos. Mas a maneira como Onze Bandeirinhas foi organizada, são 11 Cenas acompanhadas de uma fotografia cada, divididas em 11 Partes que recebem nome de cores, que comportam 11 seções. Tudo parece contribuir para um grande filme prestes a perpassar diante de nossos olhos! A insistência pelo número 11, dentre outras coisas, pode significar o além, a transgressão, o símbolo dos excessos humanos. Não teria a obra de Larêdo todas essas características?! Para finalizar, gostaria de mencionar uma personagem que logo no início da obra chamou minha atenção, isto porque ela se confunde com o objeto de pesquisa de minha tese de doutoramento – personagens prostitutas na literatura da Amazônia paraense. Seu nome é curioso: Puga Mantega. Não me atrevi em analisar seu nome, me limito em dizer que é uma mistura do vulgar com o erudito. Puga Mantega é uma prostituta de vários nomes, um para cada momento, para cada freguês. Oferecia serviço sexual de qualidade e cobrava por hora trabalhada, assim como fazem os psicólogos, por exemplo. É bom saber que uma prostituta não vende apenas sexo, algumas vezes ela é psicóloga, educadora, contadora e outras funções que o trabalho exigir. Seus clientes eram homens, mulheres... Observando as atitudes de Puga na narrativa, podemos dizer que ela é uma mulher transgressora, pois apesar de viver sob um estigma, é mulher livre e dona de seu corpo, dá e recebe prazer e não se sente culpada por isso. Segundo ela “Deus é quem promove o prazer” e se justifica ao afirmar que Deus não tem religião, pois “Deus é ser divino”. Essa maneira de Puga pensar me fez lembrar das prostitutas sagradas, as primeiras da história. De um tempo em que o sexo era sagrado e nada tinha a ver com dinheiro, e nem com o pecado. Fazer sexo era apenas uma forma de venerar a Grande Deusa, na qual todos adoravam e seguiam. Puga Mantega é prostituta de novos tempos, mulher que conquistou seu lugar de fala e aprendeu a conhecer os prazeres que o corpo pode proporcionar. Ela vê o sexo como libertação e acredita que veio ao mundo cumprir uma missão divina. Que missão será essa?! Fica o convite para a leitura de Onze Bandeirinhas.

Livro Olho de Boto

DEVOURER BOTO: QUEER INSURGENCIES INSIDE AMAZON LITERATURE

(BOTO DEVORADOR: INSURGÊNCIAS QUEER NA LITERATURA AMAZÔNIDA)

Luiz Ramiro Cruz Cardoso 

RESUMO A presente pesquisa buscou potencializar as insurgências Queer de sexualidades abjetas na literatura amazônida, tendo como recorte a obra Olho de Boto, do escritor cametaense Salomão Laredo. O Livro Olho de Boto traz como trama a relação homoafetiva entre dois “homens” e as tensões sociais vividas pelo casal no contexto cametaense dos anos 60, e por meio dessa obra tecemos uma discussão sobre as questões de gênero-sexualidade com base em grandes trabalhos da teoria Queer e da sexualidade como Butler (2003), Foucault (2006), Miskolci (2012) e Preciado (2014). Por meio de um exercício antropofágico (Costa, 2008), sob arquétipo do Boto entrelaçamos a teoria e a literatura queer (de expressão em Língua Inglesa) à literatura de expressão amazônida, haja vista que a língua inglesa hoje se concentra como a língua da comunidade internacional e não apenas dos nativos, conforme podemos observar na BNCC (2018): “A BNCC prioriza o foco da função social e política do inglês”. O caminho metodológico da pesquisa baseia-se na pesquisa bibliográfica e literária, O devorar acadêmico-literário respinga ressonâncias subversivas. Desse modo, a pesquisa visa contribuir para uma educação atuante nesse processo, capaz de devorar a heteronormatividade e revisitar as sexualidades insurgentes de sujeitos reais que lutam para afirmar a vida e a liberdade de seus corpos marginalizados em nossa sociedade.

Nova revista Amazônica

NOVA REVISTA AMAZÔNICA:

Dossiê de territorialidades Amazônidas, culturas e resistências 

Nellihany dos Santos Soares

PUTIRI E BANHOS DE RIO, UM PASSEIO PELAS NARRATIVAS DE SALOMÃO LARÊDO – BREVES CONSIDERAÇÕES Nellihany dos Santos Soares1 Erica Cristina Rodrigues Nascimento Lima2 Flavia Roberta Menezes De Souza3 RESUMO O presente estudo tem como objetivo apresentar as principais características das obras Putiri (2022) e Banhos de Rio (2023), do escritor paraense Salomão Larêdo, a fim de conduzir o leitor pelos meandros da narrativa larediana. Inseridas num contexto que pertence à literatura produzida na Amazônia paraense, mais especificamente a região do Baixo Tocantins e Belém, as referidas narrativas falam do povo da Amazônia, de sua cultura, de seu modo de viver e de se expressar, povoadas de um forte imaginário. Nosso interesse está voltado para a forma utilizada pelo autor de criar seu texto literário, misturando gêneros textuais e modos de narrar, a não obrigatoriedade da lineariedade, a criação de centenas de personagens que, em sua grande maioria, são mulheres. De imediato, essa estrutura diferente de narrar pode causar estranhamento, mas também pode ser um gostoso desafio para quem gosta de sair da rotina e desvendar novos caminhos do texto literário. Personagens, estrutura narrativa, linguagem popular, polifonia, expressões advindas de outros idiomas, transgressão feminina, denúncia social e intertextualidades são algumas das características que serão apresentadas e discutidas ao longo do trabalho, que pretende contribuir para a crítica do autor e convidar os leitores à imersão na mitopoética de Salomão Larêdo. Esse trabalho de pesquisa ainda se encontra em andamento, portanto, os resultados serão apresentados na medida em que a leitura da obra e análise dos pontos principais vão sendo investigados. O trabalho contempla uma abordagem de cunho bibliográfico.

Professora Lucilena Gonzaga

SALOMÃO LARÊDO, CONFESSA, SEM MEDO, O TEU SEGREDO DE GENTE DA GENTE, DE SER VERSO, REVERSO, MULTIVERSO... QUANTOS UNIVERSOS CABEM EM TI?!...

Profa. Lucilena Gonzaga(UFPA)

QUANTOS UNIVERSOS CABEM EM TI?!... Salomão Larêdo é escritor da ribeira do Carmo, a Vila que o fez “crescer e aparecer” nas margens do rio-leitura, da literatura amazonicamente cametaense-universal, esse é o “Sal”, sal-omão, sal da nossa terra, do lado de lá, da banda de Cametá! Vem cá, saber o sabor da escrita do nosso escritor! A obra de Larêdo, ou larediana, impõe-se a partir de uma perspectiva líquida, como o próprio rio Tocantins ou outro(s) rio(s), deságua ou dilui-se em uma linguagem cotidiana, que estabelece um pacto de (re)conhecimento entre o leitor e o autor, tonando-se simultaneamente local-universal porque trata, no sentido mais cuidadoso da palavra, de questões caras para a humanidade, especialmente, em tempos tão revoltos, como o que estamos vivendo. Parte de sua vasta produção aborda conflitos sociais às voltas de valores morais, questiona tabus, preconceitos, conservadorismos, de uma maneira muito peculiar no que diz respeito ao estilo ao coadunar a sátira, o lirismo, o erotismo, o irreverente perante as regras estabelecidas, escrita em um modo, às vezes, cinematográfico, às vezes, sintético, alongado, pausado como a fala cortante e entrecortada do caboclo amazônida, entremeada de reticências... As obras de Salomão Larêdo inspiram, transpiram, conspiram contra as fôrmas e formas tradicionais e assinalam o locus interioranus, em uma perspectiva geopoética, com um sotaque genuíno da oralidade cametaense (“hên, hên...”, “tu diz?!...”, “mas quando, já...”,) versam sobre o insólito, desnudando, desmundando, mudando o previamente estabelecido, assim, dessacralizam a língua, a linguagem, a cultura, a literatura e dão voz às multivozes amazônicas, porque libertam! Mas, afinal, quem é Salomão, se não um rei? O rei das multivozes do povo paraense, do papa-chibé, do sítio, da entre ilha da ilharga da aninga, do nheengatu, da língua-geral amazônica, língua-boa, voa, reboa, ecoa! Larêdo, confessa, sem medo, o teu segredo de gente da gente, de ser verso, reverso, multiverso... Quantos universos cabem em ti?!... Belém, 09/09/2023.

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ONZE BANDEIRINHAS, DE SALOMÃO LARÊDO: UM LIVRO COM TRILHA SONORA

Rita de Cássia da Silva, Professora e Poeta

Onze bandeirinhas, onze janelas: passagens do Guamá: bandeira de açaí, bandeira de bacaba, bandeira de miriti: romance performance aplicação situação memorial descritivo na Amazônia, de Salomão Larêdo. O título distendido da obra já aponta simbologias, terminologias, polissemias e afins para aguçar o interesse do leitor comum ou mesmo do pesquisador interessado no universo cultural dessa Amazônia Paraense. Afinal, SL por si só já se constituiu, por meio de sua robusta e profícua obra, um ícone da Cultura Paraense; ele mesmo, sumo da alma parauara. A base forte de sua extensa obra, sabe-se já, é o levantamento de campo, a perene pesquisa; mas, o trabalho com a linguagem constitui-se, provavelmente, a viga mestra dessa arquitetura literária. Arquitextura, obra arquitetonicamente pensada, de um estilo ímpar. Desafiador. Com cerca de 340 páginas, o livro é entrecortado por intertextos com os clássicos como o Metamorfoses, de Públios Ovídio Naso, uma rapsódia, que em seu Livro IV, conta a história de amor impossível entre Píramo e Tisbe; aliás, texto inspirador de Shakspeare e o seu Romeu e Julieta; entre outras narrativas regionais. Todas elas compondo o corpo da obra. O que torna possível ao leitor compreender a tessitura ficcional empreendida pelo escritor que contextualiza as informações desses textos base com elementos da cultura regional: lendas, personagens, lugares, costumes. “Amazônia é o Olimpo!” E mais, recorte de casos cotidianos, histórias entrecortadas, causos e personagens que vão encorpando o texto, o ambiente narrativo, a obra. Sobre a pontuação, parágrafos longos sem ponto, simulando a linguagem oral. E para os que dizem da infinidade de personagens trazidas à lume pelo escritor em uma mesma obra, nesse Onze, eis que surgem verdadeiros “paredões” de nomes de novos personagens de uma só vez. Como que uma multidão amazônida, historicamente silenciada, se levanta unida e jamais vencida. Dinamizando a linguagem de maneira, decerto, inovadora. Quanto ao vocabulário: gírias, ditados populares, expressões regionais, aportuguesamento de palavras: “’égua, não!’, ‘Com beira’, piço, esmartefone, espás, ‘assim de gente’, stalkear, home-ofice, ‘caiu a ficha’, instagrar, ‘apaporra!!’, ‘Marrapá!’, ‘E vida que segue...’, feique, laive, querrecode, ai fonizando”. Fotos e depoimentos que poderiam apenas dar base às fontes, antes, fazem parte do corpo ficcional da obra. Sua própria substância. Como a Fotografia de autoria de Janduari Simões, entre outras. Convém ressaltar, no âmbito do trabalho com a linguagem, a presença do nosso açaí, que vem no bojo da contextualização do texto de Ovídio, onde Larêdo se utiliza do fruto do açaizeiro em substituição ao fruto da amoreira da obra original. “Açaypsilon açaidrone açaímetro açaimado açaítico açaimítico açaído açaí-me!”. Açaí hi tec tipo exportação: “Agora os caroços de açaí viravam carvão e filtro. O gringo americano inventou barras de açaí e sorvete seco e tudo seguia nos navios”. E a exploração e exportação do açaí: “A mulherada burguesada na procura da fonte da juventude, de emagrecer, enlindecer, ficar com a pele limpa, macia, pagava caro”. A ficção aportando na plena realidade. O açaí, recentemente, a peso de ouro como nunca se vira antes. E o que dizer da procura quase arqueológica do lendário Onze Bandeirinhas, feito um Cálice Sagrado, empreendida pelo escritor homenageado pela Feira Pan- Amazônica do Livro, edição 2023? Resultado: Quase um sequenciamento poético do bairro do Guamá : “um bairro excluído, muito pobre e nascido com o DNA maldito pela sociedade de então”, segundo o depoimento de Graça Fadul, bibliotecária do Madre Zarife, no Guamá. Larêdo lança mão de várias camadas produzindo um amálgama do Guamá de outrora e de hoje. Uma espécie de síntese do Pará, originado com pessoas provenientes do êxodo rural, principalmente do interior do estado, acarretando um crescimento desordenado da cidade e suas consequências como falta de saneamento e condições de moradia digna. “Ah, nação guamaense!” Em um cruzamento entre História e Memória, SL tece uma escrita palimpséstica, como conceitua a historiadora Sandra Jatahi Pesavento, em seu artigo “Com os olhos no passado: a cidade como palimpsesto”. Nesse Onze Bandeirinhas, sobrepõe camadas, “através do cruzamento de diferentes fragmentos, como em um puzzle, onde peças de variadas épocas — planos, fotos, pinturas, desenhos, mapas — em composição, permitam juntar partes de forma a compor urna cena”. Assim sendo, ele reconstrói, revela partes do passado para resgatar velhos espaços, muitos deles já inexistentes. A metáfora do palimpsesto consiste em um pergaminho do qual se apagou a primeira escritura para reaproveitamento por outro texto. A saber, a recriação de um espaço já não presente na cidade atual; “ver uma ausência e fazer falar o silêncio”. “E onde havia o campo de futebol, que depois virou local de festas e de apresentação de quadrilhas juninas, hoje existe escola e Igreja Pentecostal”, lembra a entrevistada. “Talvez, o nome (do local de festas) seja originário da Passagem 11 Bandeirinhas”, acrescenta outra. Um pouco das camadas que recriam, na obra, o contexto da cidade de outrora: “Os “prestação” enchiam as ruas do Guamá, vendendo todo tipo de bugiganga, um saranzal nas ruas, na submissão”; “Vazio ouvia, na oficina de móveis, os merengues da Patrulha da Cidade!”; “Dois conseguiram como foguistas na Palmeira e outros dois, de limpadores, na Quatro e Quatro. Empregados”; “internato do colégio Santo Antonio, no centro de Belém, no bairro do Reduto,/ sermão das três horas da agonia / palacetengenhofavela do arquiteto Landico/ construções da Cidade Velha/ paralelepípedos do largo da Sé, no escuro do pátio da igreja de santo Alexandre, na ladeira do Castelo, no vidrario da casa das Onze Janelas./ João Alfredo, no comércio,,/ engenho Murucututu, pras bandas da Ceasa/ cemitério da Ordem Terceira. /Meninos disputavam papagaios nas ruas com varas e linhas”; “Furtava fio elétrico da Força e Luz do Pará”. E mais, “O corpo todo retalhado de navalha chegou no caixão no cemitério e o povo queria linchar o navalhista assassino, a menina casada de dezoito anos e o seu primeiro bebê. Severa que chegara da Itália para ajudar ao frei Daniel morreu no desejo do soldado”, (Severa Romana)”. Personagens e profissões: Amolava (Açougueiro, peixeiro), Costureira (pegada na máquina), Mulesta (trabalhava na Phebo, Fábrica de sabonete),Benedito (sapateiro bem requisitado pelos donos de sapataria), Moquém (boate da gente pobre sempre bem frequentada”. No dizer de Ítalo Calvino, As Cidades Invisíveis, “é preciso entender que uma cidade abriga muitas outras cidade (cidades soterradas)”. “O Cabaré dos Bandidos”, outro livro de Larêdo, também se passa no Guamá, sua dura realidade de migrantes interioranos. A diferença é que há uma história narrada de maneira mais consistente; linha narrativa mais longa e contínua. Onze Bandeirinhas traz inúmeras narrativas entrecortadas. Uma narrativa pulverizada de histórias e personagens diversos. E mais, o excesso de personagens, falas e narrativas que se entrecruzam, dão a impressão de cenas que ocorrem concomitantemente. Como em um clipe ou sequências cinematográficas. E lendas: “Odivela e Velaide eram botas e matintaspereras e animavam os terreiros e as associações anfíbias e ligas ribeirinhas. Tramavam e executavam.” Botos e Matintas em contextos urbanos. “Encenador ensinando com o pé de boto e fisgava situações. Molandro misturou boto com MatintaPerera e CobraGrande e inventou Mota, negra sedutoramente bela violentada por guarda real de Sinuzite de quem pariu duas cobrinhas muito sapecas que trafegam pelo Guamá e aprontam”. Soma de lendas amazônicas. O urbano e o lendário, no meio urbano guamaense. Temas e tempos diversos. Pandemia, Guerra da Ucrânia, Mário de Andrade no Grande Hotel, A Pensão da Coty, Epidemia de Cólera, EAD ou ensino a distância, Orson interage com o personagem no Guamá, Santos Populares, personagens populares do bairro. Como textos superpostos, há uma escrita que se sobrepõe sobre a outra. Espaços da Boemia: “Cabaré dos Bandidos, Carroceiros, Grajaú, Pouca Telha, Pingo de Ouro, Riacho Doce, Tucunduba. Danço em todas”. Portanto, Administração e construção de memórias coletivas. “Passagens do Guamá: Santa Fé, Jambu, Silva Castro...” Paisagens urbanas que se superpõem e trocam de significados no espaço e no tempo. Uma ampla composição desse “Mundo Guamá”. Para finalizar, a parte que justifica o título desse texto, a trilha sonora. Onze Bandeirinhas, a canção homônima ao livro, composta e cantada por Salomão Habib, feita para homenagear o pai dele, “Raimundo Otávio de Souza Dantas conhecido como Raimundo Dantas, trompetista músico integrante da banda do 26º Batalhão de Caçadores do Exército, o primeiro integrante da primeira banda de jazz da Amazônia JAZZ Vitória”, que chegara a tocar no Onze Bandeirinhas, “Uma gafieira muito animada onde a música requintada pelos acordes dos conjuntos de metais e sopros das bandas fazia a alegria dos salões repletos de moças e rapazes que não se intimidavam com os passes difíceis das danças da época e soltavam suas alegrias nas festas noturnas”. E, mais, as músicas do famoso “artista popular, Pinduca, figura emblemática de nossa arte e cultura e personalidade da música, justa e reconhecidamente coroado, o Rei do Carimbó”, que tocou no Onze Bandeirinhas na orquestra do Orlando Pereira que tinha duas orquestras em Belém: Orlando Pereira, que tocava na sociedade. E a Orquestra Internacional, que tocava na baixa sociedade. Entre outros cantores e canções citados no livro. Onze Bandeirinhas, o livro, entre História, Memória e Ficção, é uma obra que resultou de intensa pesquisa somada à inventividade das letras de Salomão Larêdo. Que mais uma vez traz para os leitores uma oportunidade de conhecer a História e a Cultura do Estado do Pará. Afinal, não se pode valorizar o que não se conhece.

© 2025 por Eduarda Abreu. 
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